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O enigma da longevidade das franquias no Brasil

Fátima Lourenço - 9/5/2010 - 19h38

O franchising brasileiro registrou, apenas nos dois últimos anos, 446 novas marcas, entre consagradas e estreantes, totalizando 1.643 redes no fim de dezembro passado. A gama de atividades também cresceu em vários segmentos, com movimentações que chamam a atenção. Na área odontológica, a intensa proliferação de marcas gerou cerca de 20 opções de negócios. Também é efervescente o nascimento de franquias de bebidas à base de iogurte, apenas para citar dois exemplos. Mas como saber se o mercado nacional reserva vida longa a tantas novidades?
Não existe uma resposta definitiva para isso, um modelo de análise para prever se uma atividade terá ciclo de vida curto ou longo, responde o sócio-diretor da GS&MD Gouvêa de Souza, Ivan Correa. A questão é complexa, afirma, e deve ser analisada sob as perspectivas sociológica e tecnológica.
Do ponto de vista sociológico, pode-se observar os fatores que motivam as pessoas a buscar aquele produto ou serviço – a motivação é temporária? Impulsionada por uma política governamental pontual? É uma tendência de consumo? Um modismo? São algumas das perguntas a serem feitas.
"Os negócios motivados por modismo tendem a ter um ciclo menor de vida", alerta o consultor. Ele ressalva que nem sempre o fato de muitas empresas se dedicarem a uma mesma atividade significa que se está diante de um modismo. "É preciso observar se não é uma tendência."
Na opinião do presidente da Dubnet Consultoria em Varejo & Franchising, Danilo Andreoli, é necessário observar as operações pelo menos por dois anos para saber se uma atividade está sendo replicada por modismo. "Até há cinco anos, os quiosques da Chilli Beans eram considerados um modismo. Muita gente copiou. Mas só fica no mercado quem é bom", sentencia. O modismo é facilmente copiável, mas é um modelo frágil, diferente de um produto desenvolvido, acrescenta o consultor.
Sobre a atual proliferação de marcas no ramo odontológico, tanto ele quanto Correa, da GS&MD, ponderam que a oferta é grande, mas a demanda também. "Somos um País de banguelas. No futuro, não se sabe! Poderá haver algo que acabe com as cáries ou acontecer uma tolerância social a ela", diz Correa.
A análise do ciclo de vida de uma atividade sob a perspectiva tecnológica, segundo o diretor da GS&MD, é difícil de ser colocada em prática por leigos porque o lançamento de inovações, geralmente, é precedido de anos de estudo. "A ruptura tecnológica já modificou ou acabou com vários negócios." O comércio de música foi um deles. "No caso do CD, não importa se é uma indústria, uma rede de franquia ou uma lojinha de bairro, é um determinismo ambiental", define Correa. Mas há 15 anos isso não era tão evidente assim, compara o executivo.

Sobrevivência
Andreoli acompanhou de perto as mudanças nesse ramo, à frente do departamento de franchising da Planet Music, marca bem conhecida do paulistano, cujo controle (60%) foi vendido para o grupo recifense Aky Discos. Da antiga rede, restaram algumas unidades próprias em Brasília, sob comando do grupo, e dois ex-franqueados, que negociaram uma licença da marca para manter as lojas.
Fábio Coutinho Anache, de Campo Grande (MS) é um dos sobreviventes. Ele se considera favorecido pelo esforço pessoal de marketing que imprimiu regionalmente quando a rede ainda era forte, e, ironicamente, pela quebra da concorrência. "No shopping no qual estou havia quatro lojas de CDs. Sobrou apenas a minha." Ele próprio, no entanto, não sabe prever a sobrevida do negócio. "Tive uma boa visão há dez anos, sai da loja de rua para uma pequena em shopping. Hoje, loja de CD só vale como uma coisa de nicho, especializada." Ele opina que o maior impacto à rede Planet e ao setor veio da pirataria, mais do que o preço dos importados e a internet. "As gravadoras se omitiram", lamenta.
A "ruptura tecnológica" não implica, necessariamente, a morte de uma atividade. Correa, da GS&MD, lembra que os cursos de informática agregaram o ensino de idiomas e cursos profissionalizantes. "A franquia pressupõe o apoio do franqueador. Quando a pessoa escolhe, pensa que ele tem a capacidade de antever às mudanças", afirma.
Diversificação
A rede 100% Vídeo tem feito esse exercício para sobreviver. O diretor de franchising, Carlos Augusto, comenta que a migração dos filmes de VHS para DVD não trouxe problemas. Ao contrário, a economia aquecida fez o setor avançar, entre 2003 e 2005, de cerca de 8 mil lojas para 22 mil. "Mas veio a pirataria e a maioria fechou. Voltamos ao patamar de 8 mil. A rede chegou a 96 unidades. Hoje são 72."
Segundo Augusto, a chegada do Blu-ray (tecnologia de alta definição que substitui o DVD) poderá impulsionar o mercado novamente, por dificultar a pirataria. Nos últimos anos, para equilibrar o negócio, o franqueador ampliou o mix das lojas. Hoje, guloseimas, livros, cafés, sorvetes e brinquedos representam cerca de 25% do faturamento.
Para acompanhar a evolução tecnológica e novos hábitos do consumidor, a 100% Vídeo testa um software para locações online de filmes. A meta é lançar a novidade no segundo semestre. Além disso, desenvolve uma ferramenta para download, negócio que tende a ganhar destaque, analisa Augusto, quando o Brasil tiver uma banda larga "mais poderosa". A marca também lançará uma loja virtual e máquinas para locação, duas já instaladas. Augusto aposta que a loja mais compacta, outra novidade, contribuirá para ampliar a rede para 100 lojas até meados de 2011.
A conversão de bandeira ainda deverá contribuir para isso.


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